TRANSFORMAÇÃO DIGITAL | BIM

1.     TRANSFORMAÇÃO DIGITAL

Transformação digital” virou, nos últimos anos, uma expressão de uso tão amplo que perdeu precisão. No contexto da engenharia industrial, ela é invocada para justificar desde a compra de uma licença de softwares de modelagem 3D, fluxogramas inteligentes e até a migração de um acervo de plantas para PDF, iniciativas legítimas, mas que não chegam perto do que o termo deveria significar.

A literatura especializada separa os dois conceitos com clareza: digitalização é a conversão de informação analógica em digital; transformação digital pressupõe mudança estrutural nos processos, nas relações organizacionais e na forma como o valor é gerado ao longo do ciclo de vida de um ativo (ROGERS, 2016; OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010).

A diferença não é semântica. Uma empresa pode digitalizar décadas de plantas e continuar operando com os mesmos problemas de antes, informação fragmentada, decisões baseadas em documentos desatualizados, silos entre departamentos e aquele velho retrabalho que a equipe só descobre na fase de montagem em campo.

No setor industrial, a transformação genuína depende da articulação coerente de três camadas: Sistemas, Plataformas e Metodologia BIM.

Uma planta de papel e celulose, uma unidade petroquímica ou uma instalação de processamento de gás operam com centenas de disciplinas, milhares de tags de instrumentação e entregáveis contratuais interdependentes.

Nenhuma dessas camadas, isoladamente, produz transformação. Uma planta de papel e celulose, uma unidade de geração termelétrica ou uma instalação petroquímica operam com centenas de disciplinas, milhares de tags de instrumentação, cronogramas de comissionamento e entregáveis contratuais interdependentes. Gerenciar essa complexidade exige que as três camadas funcionem de forma integrada e governada. Este artigo percorre cada uma delas, demonstrando seu papel específico e as consequências de sua ausência.

2.       CAMADA 1 – SISTEMAS: a infraestrutura que conecta disciplinas

Em qualquer projeto industrial de alta complexidade, a informação técnica nasce distribuída. Civil, estrutural, tubulação, equipamentos, automação, instrumentação, elétrica, HVAC e utilidades, cada disciplina trabalha com seus próprios sistemas, suas próprias convenções e, muitas vezes, seus próprios formatos de arquivo. O AVEVA E3D cuida da tubulação e do arranjo tridimensional; o Tekla, das estruturas metálicas; o COMOS e o AVEVA Engineering, dos fluxogramas de processo e da instrumentação; o Revit, das edificações, E&IA e utilidades. Cada um desses ambientes produz informação de qualidade dentro do seu domínio. O problema é que, historicamente, eles não se falam.

Essa fragmentação tem consequências diretas e conhecidas: interferências físicas entre tubulação e bandejas de cabo descobertas na fase de montagem; estruturas de suporte subdimensionadas para cargas de equipamentos incluídos tardiamente; dados de processo que não chegam ao banco de dados de instrumentação porque transitam por planilhas intermediárias. O custo de resolver esses problemas em campo é ordens de grandeza maior do que o custo de tê-los identificado na engenharia (MCGRAW-HILL CONSTRUCTION, 2014).

A primeira camada da transformação digital é o que permite que esses sistemas conversem. Formatos abertos como o IFC (Industry Foundation Classes), regidos pela norma ISO 16739, e integrações via API entre ambientes de engenharia viabilizam a composição de um modelo federado, uma visão unificada do projeto onde cada disciplina contribui com sua parcela e onde as inconsistências entre elas ficam visíveis antes de chegarem ao campo. Quando esse modelo é alimentado com os atributos corretos e na granularidade definida pelo LOIN (Level of Information Need), ele se torna o repositório técnico central do empreendimento (EASTMAN et al., 2011).

2.1 Conexão com Sistemas de Gestão de Ativos

A relevância dos Sistemas não termina no encerramento do contrato de engenharia. Para que o as-built digital tenha utilidade operacional real, ele precisa estar conectado aos sistemas EAM (Enterprise Asset Management) ou CMMS (Computerized Maintenance Management System) do operador, os ambientes onde são gerenciadas as ordens de manutenção, as inspeções periódicas e as paradas programadas. Sem essa integração, o modelo 3D e o banco de dados de engenharia encerram sua vida útil junto com o contrato EPC, tornando-se um acervo caro e sem destinação funcional (VOLK; STENGEL; SCHULTMANN, 2014). É uma perda que raramente aparece no balanço do projeto, mas que o operador sente durante décadas.

3.       CAMADA 2 – PLATAFORMAS: o ambiente onde a colaboração acontece

Se os Sistemas produzem a informação técnica, as Plataformas são o ambiente onde ela é compartilhada, revisada, aprovada e rastreada. A distinção importa porque produzir informação de qualidade não é suficiente se ela circula por canais descontrolados, e-mails, pastas compartilhadas, grupos de mensagem, onde não há como garantir que cada equipe está trabalhando com a versão vigente.

3.1 CDE Ambiente Comum de Dados

Em projetos industriais, a informação técnica não tem valor apenas pelo seu conteúdo. Ela tem valor pelo estado em que se encontra: quem a produziu, quem a aprovou e se ela pode ser usada para fundamentar uma decisão naquele momento. Essa é a premissa do CDE (Common Data Environment), definido pela norma ISO 19650-1 como o ambiente acordado para coletar, gerenciar e disseminar os contêineres de informação de um projeto ou ativo ao longo de seu ciclo de vida (BSI, 2019).

O CDE não é um servidor de arquivos bem-organizado. É uma plataforma de fluxo de trabalho, um ambiente que define como cada documento, modelo ou especificação técnica nasce, muda de estado, é revisado, aprovado e publicado para consumo pelas equipes de projeto, construção, montagem e operação.

O coração do CDE como plataforma é o controle de estados da informação. A norma ISO 19650 define quatro estados: Work In Progress (WIP), Shared, Published e Archived. No ambiente de um projeto industrial, esses estados têm consequências operacionais diretas e imediatas. Um isométrico de tubulação em WIP não pode alimentar a fabricação de spools. Um datasheet de vaso de pressão no estado Published é o documento que suporta a ordem de fabricação ao fornecedor. Ignorar esse controle, ou tratá-lo como formalidade é a origem de boa parte dos retrabalhos de fabricação e das não conformidades que aparecem no comissionamento (AZHAR, 2011).

Em projetos com múltiplos contratantes, EPC, subcontratados de montagem, fornecedores de equipamentos críticos e fiscalização do owner, o CDE é o único ponto de verdade do projeto. Quando ele não existe ou não é usado como fluxo real de trabalho, diferentes equipes inevitavelmente trabalham com revisões distintas do mesmo documento. Esse cenário não é hipotético: é o cotidiano de projetos que ainda operam por e-mail e não descobrem o problema até que o spool errado já esteja fabricado.

3.2 Clash Detection e Gestão De Issues

Sobre o modelo federado gerenciado no CDE, duas funcionalidades têm impacto direto na qualidade de projetos industriais: a detecção de interferências e o rastreamento de pendências.

A clash detection, sejam interferências do tipo hard (conflito físico direto) ou soft (violação de tolerância operacional), quando executada sistematicamente, expõe na fase de engenharia o que seria descoberto na fase de montagem a um custo potencialmente 10 a 100 vezes maior (MCGRAW-HILL CONSTRUCTION, 2014).

O rastreamento estruturado de issues vinculado ao modelo tridimensional cria a trilha de auditoria que suporta tanto a gestão contratual quanto os requisitos de garantia da qualidade exigidos pela ISO 9001 e por regulamentos setoriais.

3.3 COORDENAÇÃO 4D e o Planejamento de Obras Industriais

O BIM 4D, vinculação do modelo tridimensional ao cronograma de execução estruturado por WBS permite simular a sequência construtiva antes que qualquer equipamento chegue ao campo. Em projetos industriais, isso tem valor especialmente na logística de equipamentos de grande porte: turbinas, permutadores de calor, vasos de pressão. Esses itens não admitem reposicionamento. Errar a sequência de chegada ou a janela de içamento não é um desvio administrativo, é um problema de engenharia com custo e prazo reais (SACKS et al., 2018).

3.4 Gêmeos Digitais

O gêmeo digital é uma réplica dinâmica de um ativo físico, alimentada continuamente por dados de sensores, sistemas de controle e históricos operacionais (GRIEVES; VICKERS, 2017). Ao contrário do modelo BIM, que representa o ativo em um estado fixo de desenvolvimento, o gêmeo digital existe em tempo real: ele reflete o que está acontecendo na planta agora, não o que foi projetado.

No contexto industrial, essa distinção tem uma implicação prática importante: o gêmeo digital não é o ponto de partida da transformação digital. É o resultado mais maduro dela. Um modelo sem atributos consistentes, um CDE abandonado após o handover ou um BEP que não previu os requisitos da fase operacional inviabilizam o gêmeo digital antes mesmo de ele ser construído.

Como plataforma, o gêmeo digital reúne três fluxos que, nos projetos industriais tradicionais, nunca se comunicaram: o modelo de informação do ativo, vindo do BIM; os dados operacionais em tempo real, vindos de SCADA, PI Historian e PLCs; e os registros de manutenção e integridade, vindos do EAM e CMMS. Ao cruzar esses três fluxos sobre uma geometria tridimensional rastreável, ele transforma o modelo de informação em um ambiente de decisão, não num arquivo de engenharia guardado em servidor.

Na prática de uma planta de celulose ou de uma unidade petroquímica, isso significa que o engenheiro de confiabilidade não precisa cruzar manualmente dados de vibração do CMMS com a localização física do equipamento e o histórico de intervenções. Ele navega até o compressor no modelo 3D, e encontra vinculados àquele tag: os dados de vibração das últimas 72 horas, a data da última troca de rolamentos e o intervalo recomendado pelo fabricante. Tudo na mesma tela. Essa convergência é o que distingue o gêmeo digital de qualquer outra plataforma de coordenação: ele conecta o dado de projeto ao dado de operação sobre a geometria real do ativo.

O que é decisivo entender é que esse resultado precisa ser planejado no EIR, estruturado no BEP e construído durante o projeto, com a definição de quais atributos precisam estar vivos na operação, não apenas presentes no handover. Plantas que não fizeram essa escolha no início gastam, anos depois, muito mais para retroalimentar um modelo que foi desenvolvido para ser entregue, não para ser operado.

4. CAMADA 3 – METODOLOGIA BIM: a governança que sustenta as demais camadas

Sistemas e Plataformas são condição necessária, mas insuficiente. Sem uma metodologia que defina como a informação deve ser produzida, validada e entregue, as ferramentas tecnológicas tornam-se repositórios caros de dados inconsistentes. A Metodologia BIM é a camada que governa as outras duas.

O ponto de partida é o EIR (Employer’s Information Requirements) ou, na terminologia da NBR 15965, o Requisito de Informação do Contratante. É o documento pelo qual o dono do ativo especifica quais informações necessita, em qual granularidade (LOIN), em quais momentos do projeto e em quais formatos de entrega. O EIR é o que impede que o modelo 3D seja detalhado além do necessário para a fase de anteprojeto ou, no sentido inverso, que seja entregue sem os atributos que alimentarão o sistema de gestão de ativos na operação.

Em resposta ao EIR, a contratada elabora o BEP (BIM Execution Plan) o documento que formaliza como os requisitos informacionais serão atendidos: quais ferramentas serão usadas, qual a estrutura de nomes e revisões, quais as responsabilidades disciplinares na coordenação e qual o fluxo de aprovação no CDE. O BEP funciona como o contrato informacional do projeto (BSI, 2019).

4.1 LOIN: A questão da granularidade

Um dos erros mais frequentes em projetos BIM é desenvolver o modelo no nível de detalhe errado para a fase em que se encontra. O LOIN (Level of Information Need), alinhado à ISO 19650, define não apenas o desenvolvimento geométrico, mas também quais informações alfanuméricas e documentais são necessárias em cada etapa, e sob responsabilidade de quem.

A Figura 3 ilustra esse conceito aplicado a um painel elétrico: na fase conceitual, uma representação simplificada com poucos dados é suficiente; na fase básica, entram TAG, tensão, corrente e grau de proteção; na fase detalhada, dimensões, fixações e documentos de engenharia. Nas fases de construção e comissionamento, o modelo passa a exigir número de série, certificados, FAT, manuais, configurações de relés e registros de testes.

O LOIN não é aumento progressivo de detalhe gráfico. É a definição objetiva de qual informação é necessária, em qual fase, com qual finalidade. Essa clareza tem impacto direto em engenharia, compras, fabricação, montagem, comissionamento e operação.

4.2 HANDOVER DIGITAL como entregável estratégico

Tradicionalmente, o encerramento de um contrato EPC se dava pela entrega de volumes de documentação em PDF, DOC, XLS, DWG e pela transferência física da planta. No paradigma BIM, o handover digital estruturado pressupõe a entrega de um modelo federado com atributos validados, para posterior vinculação ao EAM do owner, com todos os tags de instrumentação, listas de equipamentos, datasheets e procedimentos de comissionamento referenciados nos respectivos elementos do modelo. Esse é o ativo informacional que permite ao owner industrial reduzir o MTTR e otimizar os ciclos de manutenção preventiva ao longo da vida útil do empreendimento (VOLK; STENGEL; SCHULTMANN, 2014).

5.     A INTEGRAÇÃO COMO CONDIÇÃO – quando as camadas operam em conjunto

A transformação digital não emerge da soma independente das três camadas, mas de sua integração funcional e governada. Um CDE robusto sem BEP que defina o fluxo de trabalho produz um repositório organizado com informação inconsistente. Um EIR detalhado sem os sistemas capazes de produzir o que especifica gera expectativas contratuais sem respaldo técnico. Sistemas de modelagem de ponta sem plataforma de coordenação resultam em modelos federados produzidos pontualmente, sem rastreabilidade de conflitos e sem continuidade ao longo do projeto.

Estudos em empreendimentos industriais de grande porte demonstram que a integração efetiva das três camadas pode reduzir o volume de RFIs em campo em até 40%, diminuir os custos de retrabalho entre 15% e 25% e comprimir o tempo de comissionamento pela disponibilidade de um modelo de informação validado (AZHAR, 2011; SACKS et al., 2018).

Mais do que eficiência, esses resultados refletem uma mudança de paradigma: a decisão deixa de ser tomada sobre documentação fragmentada e passa a ser suportada por informação estruturada, rastreável e auditável.

1.     CONSIDERAÇÕES FINAIS

A transformação digital em projetos industriais exige maturidade organizacional, clareza de objetivos informacionais e comprometimento de todos os atores da cadeia, engenharia, obra, EPC, fornecedores e owner. Ela não se realiza pela aquisição de licenças de software nem pela certificação de profissionais em ferramentas de modelagem 3D ou P&ID inteligentes.

Ela se realiza quando os Sistemas garantem que a informação técnica seja produzida com precisão e interoperabilidade entre disciplinas; quando as Plataformas asseguram que essa informação seja gerenciada com rastreabilidade e colaboração real ao longo do projeto; e quando a Metodologia BIM formalizada no EIR, no BEP e nos processos derivados da ISO 19650 governa como as demais camadas operam, para quem e com qual propósito.

O setor industrial tem hoje todo o aparato normativo, tecnológico e metodológico necessário para essa transformação. O que ainda falta com frequência é a decisão organizacional de tratar a informação como ativo estratégico do empreendimento, com o mesmo rigor com que se trata a engenharia de processo, a integridade de vasos de pressão ou a confiabilidade de sistemas críticos. Essa é, em última análise, a fronteira real da transformação digital na indústria.

 

Referências Bibliográficas

ABNT — Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 15965: Sistema de classificação da informação da construção.

AZHAR, S. Building Information Modeling (BIM): Trends, Benefits, Risks, and Challenges for the AEC Industry. Leadership and Management in Engineering.

BSI — British Standards Institution. ISO 19650-1: Organization and digitization of information about buildings and civil engineering works, including building information modelling (BIM) — Part 1: Concepts and principles. London: BSI, 2019.

BSI — British Standards Institution. ISO 19650-2: Delivery phase of assets. London: BSI, 2019.

EASTMAN, C. et al. BIM Handbook: A Guide to Building Information Modeling for Owners, Managers, Designers, Engineers, and Contractors. 2. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2011.

MCGRAW-HILL CONSTRUCTION. The Business Value of BIM for Construction in Major Global Markets. SmartMarket Report. New York: McGraw-Hill, 2014.

OSTERWALDER, A.; PIGNEUR, Y. Business Model Generation. Hoboken: John Wiley & Sons, 2010.

ROGERS, D. L. The Digital Transformation Playbook: Rethink Your Business for the Digital Age. New York: Columbia University Press, 2016.

SACKS, R. et al. BIM Handbook: A Guide to Building Information Modeling for Owners, Project Managers, Designers, Engineers and Contractors. 3. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2018.

VOLK, R.; STENGEL, J.; SCHULTMANN, F. Building Information Modeling (BIM) for existing buildings — Literature review and future needs. Automation in Construction.

 

 

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