- Introdução:
O Combustível Sustentável de Aviação (SAF – Sustainable Aviation Fuel) refere-se a combustíveis líquidos produzidos a partir de matérias-primas renováveis, capazes de substituir parcial ou totalmente o querosene de aviação de origem fóssil (Jet A-1). A principal característica técnica do SAF é sua condição de combustível “drop-in”, ou seja, ele pode ser utilizado em aeronaves comerciais existentes sem necessidade de modificações nos motores, sistemas de combustível ou na infraestrutura aeroportuária (EASA, 2025).
Essa compatibilidade é possível porque, após o processamento, o SAF apresenta propriedades físico-químicas semelhantes às do Jet A-1 e atende às especificações estabelecidas pela norma ASTM D7566. Atualmente, o SAF pode ser misturado ao querosene convencional em proporções autorizadas de até 50%, mantendo padrões de desempenho, segurança operacional e confiabilidade equivalentes ao combustível fóssil (ASTM, 2023).
Diferentemente de outras soluções de descarbonização ainda em desenvolvimento, como aeronaves elétricas ou movidas a hidrogênio, o SAF representa uma alternativa imediata e escalável, sendo considerado hoje o principal vetor de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) no setor aéreo.
- Benefícios ambientais comparados ao querosene
O setor de aviação é responsável por aproximadamente 2,5% a 3% das emissões globais de CO₂, com participação ainda maior quando considerados os efeitos climáticos não-CO₂, como a formação de esteiras de condensação (contrails persistentes) (ICAO, 2011). O SAF se destaca por oferecer reduções expressivas de emissões ao longo de todo o ciclo de vida do combustível.
Um estudo conduzido pela EASA indica que o uso do SAF pode proporcionar reduções de até 91% nas emissões de GEE (EASA, 2025). A redução depende do processo adotado na obtenção do SAF, as reduções potenciais ultrapassam 90%, quando que o hidrogênio é produzido com eletricidade renovável e o CO₂ é capturado de fontes biogênicas ou diretamente da atmosfera (IEA, 2022).
Além da mitigação direta das emissões de carbono, o SAF apresenta benefícios adicionais: menor teor de compostos aromáticos e enxofre, além de emitir menos material particulado, resultando em combustão mais limpa (CHOOOSE, 2024). Reduções nas emissões de material particulado fino e fuligem contribuem para a diminuição da formação de contrails persistentes, responsáveis por parcela significativa do efeito radiativo da aviação no aquecimento global (ICAO, 2011). Esses efeitos tornam o SAF uma solução relevante não apenas para o controle do CO₂, mas também para a mitigação do impacto climático total do transporte aéreo.
- O papel do SAF no contexto do CORSIA
O CORSIA (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation), criado pela Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), é o principal mecanismo global para controlar o crescimento das emissões de CO₂ da aviação internacional. O programa estabelece que as emissões acima dos níveis de referência devem ser compensadas por meio de créditos de carbono ou pela adoção de combustíveis sustentáveis elegíveis (ICAO, 2019).
O SAF desempenha um papel estratégico porque reduz as emissões diretamente na fonte, diminuindo a necessidade de compensações externas. De acordo com as regras do CORSIA, apenas combustíveis que atendam a critérios rigorosos de sustentabilidade e que comprovem reduções mínimas de 10% nas emissões de GEE ao longo do ciclo de vida podem ser considerados elegíveis, sendo que o SAF aprovado normalmente supera amplamente esse limite (ICAO, 2023).
Atualmente o SAF custa mais que o querosene de origem fóssil. (IEA, 2024) Contudo, no Brasil o uso de SAF pode ser mais eficiente, economicamente, do que a compra contínua de créditos de carbono, especialmente à medida que os preços desses créditos aumentam e o endurecimento de mandatos regulatórios globais (EPE, 2025). Assim, o SAF não apenas contribui para o cumprimento do CORSIA, mas também reduz riscos regulatórios e financeiros para companhias aéreas.
- Matérias-primas utilizadas na produção de SAF
A sustentabilidade do SAF está diretamente relacionada às matérias-primas utilizadas em sua produção. As principais categorias incluem:
4.1 Óleos e gorduras
Os óleos vegetais, as gorduras animais e o óleo de cozinha usado constituem atualmente as principais matérias-primas empregadas na produção de SAF. Esses insumos apresentam alta densidade energética e são compatíveis com rotas tecnológicas maduras, como a HEFA.(ASTM, 2023) No entanto, a disponibilidade global é limitada e insuficiente para atender à demanda total de combustível da aviação, (IEA, 2025) o que reforça a importância de diversificar as fontes de biomassa. Nesse contexto, iniciativas como o projeto da Acelen Renováveis — que desenvolve uma nova fonte de gordura vegetal — representa uma alternativa promissora para ampliar a oferta sustentável de matérias-primas. (ACELEN, 2026)
4.2 Biomassa lignocelulósica
Resíduos agrícolas e florestais, como palha, bagaço de cana-de-açúcar e resíduos de madeira, apresentam grande potencial devido à ampla disponibilidade global. O Brasil, por exemplo, gera mais de 200 milhões de toneladas anuais de resíduos lignocelulósicos, o que representa uma base significativa para a produção de SAF de resíduos orgânicos (EPE, 2024). Para uso dessa matéria prima, a biomassa lignocelulósica passa por tratamentos complexos para converter sua estrutura rígida em açúcares fermentáveis ou gás de síntese.
4.3 CO₂ capturado e hidrogênio renovável
Rotas baseadas em CO₂ capturado e hidrogênio verde representam uma alternativa de longo prazo com elevado potencial de escala. Essas rotas permitem desacoplar a produção de SAF da disponibilidade de biomassa, embora ainda apresentem custos elevados e desafios tecnológicos (IEA, 2024).
- Principais rotas tecnológicas de produção de SAF
5.1 HEFA (Hydroprocessed Esters and Fatty Acids)
A rota HEFA Utiliza óleos vegetais (soja, milho, palma, óleos de cozinha usados, gordura animal e resíduos de gorduras). Processo Químico envolve a hidrogenação (uso de hidrogênio) para remover o oxigênio da biomassa, seguida de processos para ajustar as moléculas às especificações do combustível de jato. Sua principal vantagem é a maturidade tecnológica por ser quimicamente quase idêntico ao querosene convencional; entretanto, a limitação está associada à disponibilidade de matérias-primas.
5.2 Fischer-Tropsch (FT)
A rota FT é o processo que converte matérias-primas ricas em carbono — como biomassa, resíduos sólidos urbanos ou CO₂ capturado em gás de síntese (H₂ + CO) e, em seguida, em hidrocarbonetos sintéticos. Baseia-se na gasificação de biomassa ou resíduos para produção de gás de síntese, seguido de síntese catalítica. Essa tecnologia permite maior flexibilidade de insumos, mas possui menor maturidade tecnológica.
5.3 Alcohol-to-Jet (AtJ)
A tecnologia AtJ converte álcoois, principalmente etanol e isobutanol, em Combustível Sustentável de Aviação (SAF) por meio de desidratação, oligomerização, hidrogenação e separação. A conversão de álcoois em combustível de aviação representa uma alternativa interessante, especialmente em países com forte produção de etanol, como o Brasil e os Estados Unidos. A rota AtJ ainda está em fase de consolidação comercial, mas apresenta bom potencial de integração com cadeias existentes. (PETROBRAS, 2025)
5.4 Power-to-Liquid (PtL)
A rota PtL é considerada a mais promissora em termos de neutralidade climática, é um combustível sintético produzido a partir de eletricidade renovável (solar/eólica), água e CO₂ capturado. Utiliza eletrólise para criar hidrogênio verde, combinado com CO₂. O principal obstáculo atual é o alto custo de produção
- Conclusão
O Combustível Sustentável de Aviação constitui hoje a principal solução disponível em larga escala para a redução das emissões do setor aéreo. Sua compatibilidade com aeronaves existentes, aliada a reduções significativas de emissões de GEE e benefícios ambientais adicionais, posiciona o SAF como elemento central das estratégias de descarbonização e de atendimento a mecanismos regulatórios como o CORSIA.
Apesar de seu potencial, a produção global de SAF ainda é limitada. Em 2025, a produção mundial foi estimada em cerca de 2,7 bilhões de litros, (IATA, 2025) o que corresponde a menos de 1% do consumo total de combustível da aviação para atingir metas de neutralidade climática até 2050. Ou seja, será necessário ampliar essa produção para dezenas de bilhões de litros anuais.
A A1 Engenharia atua de forma estratégica ao lado de clientes e parceiros na implementação de plantas de óleos vegetais e unidades de produção de SAF. Combinamos experiência consolidada em tecnologias maduras com capacidade de desenvolver soluções inovadoras, desde a etapa de planta piloto até o scale-up e a operação em larga escala. Nosso compromisso é transformar conceitos em projetos robustos, eficientes e preparados para atender às exigências crescentes da transição energética.
Referências bibliográficas (ABNT)
ACELEN. A nova era dos combustíveis renováveis. Website disponível < https://www.acelenrenovaveis.com.br/> Acesso: 27/01/2026
ASTM. ASTM D7566 – Standard Specification for Aviation Turbine Fuel Containing Synthesized Hydrocarbons. West Conshohocken, 2023.
CHOOSE Taking flight with sustainable aviation fuel: Benefits and considerations. Website. Atlanta, 2024. Disponível: <https://www.chooose.today/resources/learning-resources/benefits-and-considerations-of-sustainable-aviation-fuel>
EASA (European Union Aviation Safety Agency). ReFuelEU Aviation Annual Technical Report. EASA Report, 2025.
EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Combustíveis sustentáveis de aviação no Brasil e sinergia com o diesel verde. Rio de Janeiro: Empresa de Pesquisa Energética, 2025. Disponível: <https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/combustiveis-sustentaveis-de-aviacao-no-brasil-e-sinergia-com-o-diesel-verde> acesso: 19/01/2026
EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Sustainable aviation fuels in Brazil future perspectives. Rio de Janeiro: Empresa de Pesquisa Energética, 2024. Disponível: < https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-839/Excecutive%20Summary%20-%20SAF.pdf> acesso: 19/01/2026
IATA (International Air Transport Association). Disappointingly Slow Growth in SAF Production. Artigo de website <https://www.iata.org/en/pressroom/2024-releases/2024-12-10-03/> Acesso: 27/01/2026
ICAO (International Civil Aviation Organization) . Sustainable Way for Alternative Fuels and Energy In Aviation (SWAFEA) European Union, 2011. Disponível: <https://www.icao.int/SAF/stakeholder-action-groups-projects-sustainable-way-alternative-fuels-and-energy-aviation-swafea>
ICAO (International Civil Aviation Organization). CORSIA Sustainability Criteria for SAF. Montreal: International Civil Aviation Organization, 2023.
IEA (International Energy Agency). Delivering Sustainable Fuels. IEA, 2025. Disponível: <https://www.iea.org/reports/delivering-sustainable-fuels/executive-summary> Acesso: 16/01/2026
PETROBRAS. SAF: veja como investimos em tecnologia rumo ao futuro dos combustíveis sustentáveis. Artigo de website. Disponível:< https://nossaenergia.petrobras.com.br/w/transicao-energetica/saf-veja-como-investimos-em-tecnologia-rumo-ao-futuro-dos-combustiveis-sustentaveis> Acesso 27/01/2026