Biodiesel: Solução Brasileira para Descarbonização e Inclusão Econômica

A busca global por alternativas sustentáveis aos combustíveis fósseis tem colocado o biodiesel como protagonista na descarbonização do setor de transportes. No Brasil, o biodiesel ocupa papel estratégico na matriz energética. Além de reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE), sua cadeia produtiva gera empregos e amplia a arrecadação tributária, fortalecendo a economia nacional.

Este artigo apresenta uma análise técnica do biodiesel de soja, abordando o processo de produção por transesterificação, impacto ambiental e social com o de emissões evitadas, empregos gerados e arrecadação de tributos, além de discutir os limites de mistura e o uso de biodiesel puro em motores dedicados.

  1. Processo de Produção do Biodiesel: Transesterificação

A principal rota tecnológica para a produção de biodiesel é a transesterificação alcalina, na qual os triglicerídeos de óleo vegetal de origem renovável reagem com um álcool de cadeia curta — usualmente metanol — na presença de um catalisador básico. A Figura 1 mostra um diagrama simplificação das operações unitárias principais envolvidas no processo de produção de biodiesel.

Figura 1 – Processo de produção de biodiesel

O óleo de soja, obtido pelo esmagamento do grão e extração por solvente, é a principal matéria prima usada na produção de biodiesel. Em 2024, o Brasil produziu 9,1 bilhões de litros de biodiesel, dos quais 65 a 75% do volume total produzido tiveram origem no óleo de soja (ANP, 2024).

Embora a soja seja a principal fonte outras fontes de óleos vegetas como palma, macaúba, sebo de boi e mesmo o óleo de cozinha usado possuem características que permite ser transformado em biodiesel. Os óleos vegetais são compostos por triglicerídeos com predominância de ácidos graxos. O biodiesel produzido consiste em ésteres metílicos de ácidos graxos e glicerina como coproduto (cerca de 10% em massa) (KNOTHE et al., 2005).

  1. Comparação Molecular entre Biodiesel e Diesel Fóssil

A molécula do biodiesel difere do diesel fóssil por conter oxigênio (~10%), grupo funcional éster, enquanto o diesel é uma mistura de hidrocarbonetos (C e H) sem oxigênio. A presença de oxigênio favorece combustão mais completa, reduzindo material particulado, CO e composto orgânico volátil (COV). (KNOTHE et al., 2005). A tabela a seguir elenca mais algumas diferenças entre os dois produtos.

  1. Impactos Ambientais 

Estudos de ciclo de vida indicam reduções de 68 a 72% nas emissões de CO₂ equivalente em relação ao diesel fóssil (CERRI et al., 2017). Essa variação leva em conta diferentes processos de produção de soja,  processamento e logística até a distribuição do biodiesel.

De forma quantitativa:

  • A queima de 1 m³ de diesel fóssil emite aproximadamente 3,2 t de CO₂ equivalente; (CARVALHO, 2011)
  • A queima de 1 m³ de biodiesel B100 emite entre 0,55 a 0,88t de CO₂ equivalente; (CERRI et al., 2017)
 

  1. Impactos Econômicos e Sociais

A cadeia produtiva do biodiesel de soja é intensiva em mão de obra e amplamente distribuída territorialmente. Ela inclui:

  • produção agrícola;
  • fornecimento de insumos;
  • esmagamento e refino de óleo;
  • produção industrial de biodiesel;
  • logística e comercialização.

A cadeia da soja e do biodiesel gerou cerca de 2,3 milhões de empregos no Brasil em 2023, considerando empregos diretos, indiretos e induzidos (SILVA, 2025). Estimativas específicas indicam que a produção de biodiesel gera de 10 vezes mais empregos por unidade de energia produzida do que o diesel fóssil, cuja cadeia é altamente concentrada (Silalertruksa, 2012). Esse efeito multiplicador reforça o papel do biodiesel como instrumento de desenvolvimento regional e interiorização da atividade econômica.

A cadeia do biodiesel de soja contribui para a arrecadação de tributos em múltiplos níveis, incluindo:

  • ICMS sobre produção agrícola, industrialização e comercialização;
  • PIS e COFINS;
  • Imposto de Renda e contribuições previdenciárias;
    • tributos sobre insumos e serviços logísticos.
  • Ao contrário do diesel fóssil, cuja cadeia está concentrada na extração e refino de petróleo — com parcela relevante associada à importação —, o biodiesel apresenta maior internalização de valor, ampliando a base tributária nacional

    Cada real gerado na cadeia do biodiesel tem efeito multiplicador superior ao do diesel fóssil devido à grande cadeia produtiva, maior dispersão setorial e geográfica da atividade (CEPEA, 2024). Ou seja, o aumento do consumo de biodiesel resulta em um aumento de arrecadação tributária mesmo que alguns benefícios fiscais sejam aplicados ao biodiesel quando comparado ao diesel de origem fóssil.

    5. Mistura de Biodiesel ao Diesel e Limites Técnicos.

 
  • No Brasil, o biodiesel é utilizado principalmente por meio da mistura obrigatória ao diesel fóssil. Em 2024–2025, o país operou com misturas na faixa de B12 a B14, uma das mais elevadas do mundo (ANP, 2024). Do ponto de vista técnico, misturas até B20 são amplamente aceitas por fabricantes de motores modernos; as limitações estão associadas principalmente à estabilidade oxidativa, compatibilidade de materiais e desempenho em baixas temperaturas. A evolução das normas de qualidade do biodiesel e do diesel tem permitido a ampliação segura desses limites.

O uso de biodiesel puro (B100) é tecnicamente viável em motores especialmente projetados ou adaptados. Esses motores requerem:

  • materiais compatíveis com ésteres;
  • sistemas de injeção calibrados;
  • manutenção adequada para controle de depósitos e oxidação.

Aplicações como geradores estacionários, máquinas agrícolas e frotas cativas já utilizam B100 com sucesso, demonstrando que o biodiesel pode atuar não apenas como aditivo ao diesel fóssil, mas como combustível principal em sistemas dedicados (KNOTHE et al., 2005).

Apesar dos avanços, desafios incluem:

  • Estabilidade oxidativa e frio extremo.
  • Diversificação de matérias-primas (óleo de palma, resíduos).
  • Expansão da infraestrutura para B100.
  1. Conclusão

O biodiesel de soja é uma solução madura e estratégica para reduzir emissões, gerar empregos e fortalecer a economia. Com políticas como o RenovaBio e evolução tecnológica, o Brasil consolida sua liderança na transição energética, conciliando sustentabilidade ambiental, desenvolvimento econômico e inclusão social.

A A1 Engenharia desenvolve projetos completos para extração do óleo e produção de biodiesel por transesterificação, desde o estudo de viabilidade até o detalhamento executivo. Nossa equipe multidisciplinar (processo, civil, mecânica, elétrica e instrumentação) garante soluções integradas, seguras e economicamente viáveis. Cada projeto é personalizado de acordo com as necessidades de cada cliente, para maximizar eficiência, reduzir custos operacionais e atender às normas técnicas e ambientais vigentes.

Referências Bibliográficas:

ANP – AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS. Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Rio de Janeiro, 2024. Disponível em:< https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/anuario-estatistico/anuario-estatistico-brasileiro-do-petroleo-gas-natural-e-biocombustiveis-2025> Acesso em 18/12/2025

CEPEA/ABIOV Cadeia da soja e do biodiesel, PIB, empregos e comércio exterior, 2025 disponível em < https://www.cepea.org.br/upload/kceditor/files/Relat%C3%B3rio%20-%20Cadeia%20da%20Soja%20e%20biodiesel%20-%203T2025_1.pdf> acesso 18/12/2025

CARVALHO, H.R.C. Emissões Relativas de Poluentes do Transporte Motorizado de Passageiros nos Grandes Centros Urbanos Brasileiros. IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Texto para Discussão 1606, Brasília/DF, 2011. Disponível em < https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/1578/1/td_1606.pdf>

SILVA. R.P. CEPEA – CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA. O mercado de trabalho na cadeia produtiva da soja e do biodiesel no Brasil ESALQ/USP, 2025. Disponível em <https://www.cepea.org.br/br/opiniao-cepea/o-mercado-de-trabalho-na-cadeia-produtiva-da-soja-e-do-biodiesel-no-brasil.aspx>  Acesso em 18/12/2025

CERRI, C.E.P. et al. Assessing the greenhouse gas emissions of Brazilian Soybean biodiesel production. PLOS ONE, v. 12, n. 5, 2017.

KNOTHE, G.; VAN GERPEN, J.; KRAHL, J. The Biodiesel Handbook. Illinois: AOCS Press, 2005.

SILALERTRUKSA T.; Gheewala, S.H.; Hünecke, K; Fritsche, U.R. Biofuels and employment effects: Implications for socio-economic development in Thailand Biomass and Bioenergy, 2012

SEMOVE disponível em <https://semove.org.br/wp-content/themes/semove/pdf/carbonometro.pdf>

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